Sítio arqueológico é descoberto em área de transição entre Cerrado e Caatinga em Feira da Mata
O reconhecimento destaca a relevância histórica e arqueológica da área, onde foram encontrados artefatos cerâmicos, instrumentos líticos.

FEIRA DA MATA — Um sítio arqueológico foi identificado no município de Feira da Mata, na região oeste da Bahia, em uma área localizada na zona de transição entre os biomas Cerrado e Caatinga, revelando vestígios da ocupação indígena milenar na região.
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Batizado de Sítio Arqueológico Engenho Fazenda Limoeiro, o local está situado dentro da Fazenda Limoeiro e passou a integrar oficialmente o patrimônio cultural brasileiro. A área, que já havia sido reconhecida como Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), teve o registro como patrimônio da União formalizado no último dia 21 de janeiro pelo Ministério da Cultura, por meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
O reconhecimento destaca a relevância histórica e arqueológica da área, onde foram encontrados artefatos cerâmicos, instrumentos líticos e vestígios humanos associados a povos originários que habitaram a região há mais de 500 anos. Com cerca de 50 hectares, a propriedade é protegida como RPPN desde 2023 e se torna a primeira área de transição Cerrado–Caatinga na Bahia a reunir RPPN, Plano de Manejo e reconhecimento como patrimônio cultural da União.
Para a diretora de Pesquisas e Estudos Ambientais da Secretaria do Meio Ambiente (Sema), Iaraci Dias, a sobreposição de proteção ambiental e cultural reforça o valor do território.
“Quando uma RPPN, criada voluntariamente pelo proprietário, também abriga um sítio arqueológico reconhecido nacionalmente, ela se transforma em um símbolo da integração entre natureza, cultura e identidade do povo baiano. É um território que preserva a biodiversidade e, ao mesmo tempo, guarda vestígios da história do Brasil”, explicou.
Conservação e responsabilidade com o território
Proprietário da área, o agricultor e produtor de cachaça artesanal Raimundo Macêdo relata que o envolvimento com a conservação começou há cerca de duas décadas, a partir da adoção de práticas produtivas sustentáveis.
“Quando comecei a levar nossos produtos para fora, percebi que produzir também é ter responsabilidade com o lugar de onde aquilo vem. Passamos a observar com mais cuidado a biodiversidade dessa transição entre Cerrado e Caatinga e entendemos que ali existia uma riqueza que precisava ser preservada”, afirmou.
Esse olhar atento levou, em 2023, ao reconhecimento da área como RPPN junto à Sema. Durante esse processo, em parceria com pesquisadores e instituições locais, surgiram os primeiros indícios arqueológicos.
“Começamos a encontrar potes, machadinhas de pedra e outros artefatos. Chamamos os arqueólogos, que confirmaram se tratar de um sítio arqueológico com vestígios de uma civilização muito antiga. Hoje entendemos que não é apenas uma área natural preservada, mas também um lugar de memória”, destacou.
Vestígios Tupi-guarani indicam presença indígena milenar
A confirmação da importância arqueológica ocorreu após visita técnica de pesquisadores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), que identificaram urnas funerárias cerâmicas e fragmentos associados a sepultamentos indígenas. Segundo o relatório da equipe, a morfologia dos recipientes — com bordas reforçadas, carena no bojo e acabamento escovado — indica filiação à tradição ceramista Tupi-guarani, associada a povos indígenas que ocuparam extensas áreas do território brasileiro antes da colonização europeia.
Os pesquisadores também registraram a presença de ossos humanos e dentes no interior de uma das urnas, reforçando a interpretação funerária do sítio. Embora ainda não haja datação por carbono 14, as evidências indicam que o contexto arqueológico antecede a desestruturação das sociedades indígenas após a chegada dos colonizadores, sugerindo uma antiguidade superior a cinco séculos.
De acordo com ofício do IPHAN, a área já está sinalizada e protegida, e qualquer intervenção depende de autorização e acompanhamento técnico. Parte do material arqueológico foi encaminhada para análise em laboratório universitário, onde passará por higienização, catalogação e estudos, podendo futuramente integrar ações educativas e de valorização da história local.
Além do reconhecimento cultural, a Fazenda Limoeiro seguirá como referência em conservação ambiental, protegendo espécies típicas da transição entre Cerrado e Caatinga e desenvolvendo atividades produtivas sustentáveis, além de iniciativas de educação ambiental e turismo de contemplação da natureza.